fevereiro 05, 2024

Migração para Campo Grande

 


Com a liberdade em mãos, pela sanção da Lei Áurea (1888), uma imagem de São Benedito no bolso para guiar os seus passos e o sonho de construir sua comunidade negra, tia Eva decidiu migrar no início do século XX, em 1904, de Jataí, sul de Goiás, para Campo Grande, acompanhando um grupo de ex-escravizados que tinham saído de Uberaba/MG. 

Tia Eva e sua comitiva, filhas, genros, netos e seu companheiro, partiram rumo ao sul de Mato Grosso com o patrimônio adquirido enquanto benzedeira, como carro de boi, galinhas, gado. O aconchego da liberdade trilhava novos rumos, projetos e esperança. 

Ao cruzarem os limites do estado de Goiás – Mato Grosso, tiveram de ser cadastrados, processo denominado de “batismo de fronteira”, pois muitos escravizados possuíam apenas um único nome. Sem sobrenome foi necessário inventá-los para adotar um “nome completo”. Tia Eva e suas filhas assumiram o sobrenome “de Jesus”, nascia Eva Maria de Jesus. 

A comitiva de Eva Maria de Jesus chegou em terras campo-grandense no de 1905, quando Eva já havia completado 57 anos. O local ainda era chamado de vila e estava em formação. 

As terras ocupadas ficavam distante do centro da Vila, era uma área periférica, de pouca valorização, que já contava com a presença de outros negros, ex-cativos de famílias da cidade, ocupando a redondeza. 

Instalados em Campo Grande, na região do Cascudo, havia chegado a hora de cumprir a promessa feita a São Benedito: construir a capela, em reconhecimento ao milagre alcançado, já que a ferida na perna, de mais de 15 anos, havia sido curada e o sonho da terra concretizado.  

Por volta de 1910, com os recursos adquiridos pelas diversas frentes de atuação, tia Eva comprou as terras que ocupava a fim de regularizar a posse de sua propriedade. Saindo por volta de 85 mil réis. 

Juntamente aos serviços de benzeção, parteira, lavadeira, os conhecimentos de tia Eva na produção de doces, aprendidos no período da escravidão, foram essenciais para a sobrevivência do grupo em Campo Grande. Os “doces de tia Eva”, como ficaram conhecidos, introduziram novos sabores e receitas na culinária local. 

Eva Maria de Jesus morreu em faleceu em 11 de novembro de 1926, aos 78 anos.  Segundo Seu Michel, “quando tia Eva morreu foi como se tivesse morrido um governador, uma grande pessoa. A cidade toda veio para cá”. 

A história da matriarca na cidade também representa a história de Campo Grande, como argumenta a tataraneta Vania Lucia Baptista Duarte, “quando eu converso com meus tios, que são bem mais velhos, eles falam: eu ajudei a fazer tal coisa, eu ajudei a construir, eu trabalhei não sei onde. Aqui não era nada, tudo era mato. Então isso é estar presente na formação da nossa cidade”. 

A presença da população negra foi essencial para erigir Campo Grande. A invisibilidade e o silenciamento de quem contribuiu para a constituição de nossa cidade, como os indígenas e os negros, sobretudo quando se trata de mulheres negras, precisam ser contadas.   

Considerar Eva Maria de Jesus enquanto fundadora da cidade, não é necessariamente provar que ela chegou primeiro que o José Antônio Pereira, mas sim ampliar a discussão para perceber e visibilizar as pessoas envolvidas na formação da cidade. Já que Campo Grande estava em plena construção no final do século XIX e início do XX.





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