fevereiro 05, 2024
Dona Goia e os estudos
No início da década de 1970, com 35 anos de idade, Gonçalina terminou sua formação escolar, os Anos Finais do fundamental, por meio da madureza ginasial, atual Educação de Jovens e Adultos (EJA), porém, naquele tempo, ela estudava por conta própria para depois realizar as provas, no mesmo estilo do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).
Seus filhos crescidos e finalizado o ensino médio, antigo segundo grau, sua hora havia chegado. E assim, dona Goia se matriculou no Colégio Moderno para cursar o Magistério ou Normal-Médio, avançando mais uma etapa na formação escolar com o ensino secundário. Ângela compartilha que ela e a mãe iam juntas para a escola, por volta de 1972-1974.
Por considerar a educação uma porta para melhorias de vida, não parou no curso Normal-Médio. Deu sequência aos estudos e, por volta de 1975, o ensino superior lhe esperava, tornando-se estudante de Pedagogia. Essa trajetória de formar-se pedagoga não foi nada fácil, segunda sua filha.
Devido aos poucos recursos financeiros, cursou a graduação em Presidente Prudente, interior de São Paulo, na modalidade “curso vago”. Essa modalidade é uma espécie de curso a distância.
A cada dois meses Gonçalina viajava para a cidade, ficando por lá de quatro a três dias, para assistir aulas, cumprir créditos, realizar as avaliações e pegar os materiais para atividades e estudos.
Ângela expõe que foi uma batalha violenta para bancar o curso, pois como tinha mensalidade, “foi numa luta muito grande, ela dando aula. Aquela loucura”. Alguém que foi para a escola e para a escola voltou, mas como professora.
Entre as pessoas que faziam parte do seu círculo de amizades, foi umas das únicas a retomar os estudos, mesmo que tardiamente, já que grande parte delas havia parado no ensino primário.
Dona Goia entendia sua situação de mulher negra, tanto que repetia “nossa pele, nossa cor, nosso suor é mais forte”, segundo sua filha. Essa fala evidencia o que Sueli Carneiro debateu acerca do mito da fragilidade feminina (2003, p.50-51), “nós mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis”.
Vivendo “na pele” a intersecção de raça, gênero e classe, mesmo abatida não se abateu diante dos percalços, desânimos e inseguranças, que não devem ter sido poucos.

