janeiro 27, 2024
Tia Eva e São Benedito
Era muito comum a devoção a São Benedito entre os escravizados, uma vez que esse santo foi um homem negro e cozinheiro. Assim, se tornou uma espécie de protetor dos negros, o padroeiro dos
escravizados, sobretudo das cativas cozinheiras, uma identificação em duplo sentido.
Por meio da devoção a São Benedito, o seu santo padroeiro, Eva dividia suas aflições e desejos. De certa forma, sua fé era um acalento na alma e a certeza de que não estava sozinha, tanto que pedia ao santo a cura da ferida e o auxílio para ir embora da fazenda.
Ao presenciar, mais uma vez, a aplicação de castigos físicos, fez uma promessa ao santo: caso conseguisse a cura e a terra no sonhado Mato Grosso, prometia fazer da nova terra uma comunidade só para os seus e construir uma igreja para São Benedito.
No pós-abolição, tia Eva permaneceu na fazenda dos Vilela, pois sem muitas condições materiais continuou sendo empregada e vivendo das benzeções. Após 16 anos da Lei Áurea, migrou com sua família para o sul de Mato Grosso.
Em 1905, instalados em Campo Grande, na região do Cascudo, atual bairro Seminário, havia chegado a hora de cumprir a promessa feita a São Benedito: construir a capela em reconhecimento ao milagre alcançado, já que a ferida na perna, de mais de 15 anos, como relata seu Michel, havia sido curada e o sonho da terra concretizado.
Os recursos financeiros e materiais necessários para a construção da igrejinha foram obtidos por meio de esmolas, como chamavam as doações, mas também presentes provenientes dos serviços, benzedura, lavadeira, parteira, vendedora de doces/hortifruti, realizados por tia Eva.
Em 1906, a igrejinha ou igreja de São Benedito era finalizada. A segunda edificação religiosa mais antiga do município de Campo Grande foi construída pela Comunidade Quilombola Tia Eva.
Desde 1919, ao reformar a igrejinha para substituir a estrutura de pau a pique por alvenaria, renovou sua fé e organizou a primeira Festa de São Benedito. Não poupou esforços a fim de arrecadar donativos para o festejo.
Suas tataranetas reforçam que Eva Maria uma mulher muito animada, à frente do seu tempo e tocadora de sanfona pé de bode. Esse entusiasmo foi essencial para tia Eva e outros parentes realizarem a folia da bandeira de São Benedito e visitarem as fazendas da região em busca de doações.
A festa atraia pessoas de toda a cidade e como não existia o salão, acontecia embaixo da mangueira perto da igrejinha.
Enquanto viveu, tia Eva foi a organizadora dessa grande celebração anual e reuniu várias mulheres nessa empreitada. Mulheres da região do Cascudo, da comunidade negra Furnas do Dionisio e Buriti, todas envolvidas na estruturação do cotidiano festeiro e religioso.
O protagonismo da festa de São Benedito era conferido a um corpus feminino, negro, plural e intergeracional, entrelaçadas pela devoção ao santo, o qual fortalecia essas relações de parentesco e compadrio e fomentava as trocas e a reinvenção de práticas e saberes.
Em maio de 2023, ocorreu a 104ª festa de São Benedito e teve divulgação on-line. A Comunidade Quilombola Tia Eva vem cumprindo com a promessa de Eva Maria de Jesus e segue dando continuidade à festa, mesmo após a sua morte.
Durante dez dias de festa ocorre a missa inaugural e de encerramento, a novena, a procissão com o andor de São Benedito e Nossa Senhora Aparecida, apresentação cultural, torneio de futebol amador e o tradicional churrasco gratuito de encerramento (Ribeiro, 2014).
Obs.: a imagem acima é a estatueta de São Benedito carregada por tia Eva ao longo de sua vida.

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