Na década de 1950-60, era muito comum a mulher exercer o papel de esposa-mãe-dona-de-casa não sendo comum, muito menos permitido, trabalhar fora. O projeto familiar e os afazeres domésticos recaiam sobre a mulher, a mãe, e às filhas cabiam ajudar. O pai era convocado em última instância, quando o problema fosse muito sério.
Mesmo com dificuldades financeiras, o papel do homem provedor ainda era muito forte e a mulher reduzida ao papel de esposa sem objetivos próprios, atuante apenas no privado, havia uma subordinação e o descarte de ideias femininas, até mesmo na comunidade negra.
Dona Goia, consciente das dificuldades da família e no ensejo de algo melhor, contrariando o marido, o filho mais velho e a sociedade, decidiu trabalhar. Ângela compartilhou que a opinião da mãe era “Eu posso fazer, eu consigo ajudar em casa”, e sempre ouvia “mulher não é para sair, mulher é para ficar dentro de casa cuidando dos filhos e afazeres domésticos”.
A entrevistada ainda complementa “minha mãe tinha uma cabeça muito lá na frente, sabe. Todo mundo pode ajudar, porque aqui não mora só eu. Eu não tenho que fazer tudo, vocês podem fazer, um ajuda o outro”.
O planejamento e a articulação traçados para começar a trabalhar e obter uma fonte de renda evidenciam a liderança feminina na família e rompem com a ideia de esposa passiva, subordinada ao esposo e puramente do lar.
Diferentemente das sociedades ocidentais e do patriarcado, em muitas sociedades africanas, a mulher ocupa papel central e relevante, o matriarcado. Centro dinâmico da comunidade, líderes comprometidas, com habilidades de motivar, influenciar e dotada de saberes. Aqui vemos mais uma liderança.
O enfrentamento se fez necessário e para poder contribuir no sustento da família, Gonçalina organizou as tarefas domésticas entre os filhos. Tornaram-se os responsáveis em gerir a casa na sua ausência.
Assim, a matriarca pôde trabalhar fora
prestando serviços domésticos nas “casas de família” do centro da cidade. Sua
filha relata que tal organização era incrível, a mãe criou uma escala entre os
filhos e a cada semana, cada qual cumpria uma tarefa. “Meu objetivo é para que
não tivesse falhas, para ninguém implicar com ela, porque senão...”.
A desvantagem das mulheres negras no mercado de trabalho instalou-se logo após a abolição, já que grande parte da população negra desenvolveu atividades de baixa remuneração e predominaram em ocupações subalternas de servir/limpar.
Outra forma da discriminação racial se manifestar no mercado de trabalho era pelo eufemismo da “boa aparência”. A discriminação por gênero se agrava com o critério racial, uma vez que a noção de boa aparência se aproxima da estética eurocentrada.
E afeta significativamente mulheres negras no mercado de trabalho, jogando-as para empregos mais vulneráveis, mal remunerados e sub-representadas em cargos de chefia. Assim ocorreu com Gonçalina, já que a oportunidade de trabalho também se voltou ao ambiente doméstico.
No ano de 2023 faz dez anos da aprovação do projeto intitulado PEC das domésticas, um avanço e reconhecimento à essas trabalhadoras com regulamentação em 2015, emenda constitucional que garantiu direitos trabalhistas aos trabalhadores domésticos.
Destaca-se, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE do 4° trimestre de 2019 e 4° trimestre de 2021, que 92% dos ocupantes da categoria são mulheres, das quais 65% são mulheres negras, as permanências da história.
A grande maioria das empregadas domésticas do Brasil são mulheres negras, isto é, a dinâmica de trabalho estabelecida pela escravidão manteve-se no mercado de trabalho pós-abolição e continuou afetando a vida da população afro, gerando desigualdades e “lugares” corporificados.
A pouca escolaridade e os critérios raciais do mercado de trabalho, a “boa aparência”, colocava o trabalho doméstico como principal possibilidade para mulheres negras. E na trajetória de nossa protagonista não foi diferente, vimos que ela desempenhou a função de diarista e lavadeira até formar-se professora.
Nesse contexto, o magistério foi um dos caminhos que a mulher de poucos recursos encontrou, sobretudo a mulher negra, na sociedade brasileira do século XX para instruir-se e colocar-se no mercado de trabalho longe dos trabalhos domésticos, como foi o caso de Gonçalina.
Márcia Lima (1995, p.28) demonstra que mesmo rompendo barreiras sociais, “quando mulheres negras conseguem investir em educação numa tentativa de mobilidade social, elas se dirigem para empregos com menores rendimentos e menos reconhecidos no mercado de trabalho”.