fevereiro 05, 2024

Professora Gonçalina Faustina de Oliveira


 O envolvimento e trabalho com a alfabetização, sala de aula e docência começou no decorrer do próprio curso de Magistério. Nas dependências do Colégio Moderno funcionava o Clube da Mãe Pobre, mães que iam até o local para serem alfabetizadas e aprender trabalhos manuais, como costura e tricô. 

Para que pudessem frequentar os encontros, recebiam uma cesta básica como auxílio. Assim, dona Gonçalina começou sua trajetória no professorado.  Os relatos coletados evidenciam que dona Goia dedicou-se à educação elementar, o letramento. O seu afã foi a alfabetização, tanto de crianças quanto adultos.

 Moradora do bairro Cruzeiro, sendo a sua família muito conhecida na região, não demorou para que a tia Goia acolhesse as crianças do Educandário Getúlio Vargas, orfanato próximo dali, fazendo do seu lar um ambiente educacional, uma escola.

Desenvolveu trabalho voluntário com as crianças desse antigo orfanato, fortalecendo seu comprometimento com a educação, pois muitas delas frequentaram sua casa no contraturno para reforço escolar.

Essa iniciativa envolveu toda a família de Gonçalina. Até seu esposo, que no início não a apoiava, foi o responsável por transformar uma parte da varanda em sala de aula, instalou uma lousa e mesa grande de madeira. 

Seu intuito era colaborar na educação daquelas crianças órfãs e o diretor da instituição permitia a saída das crianças para ir à casa de Gonçalina estudar. Iniciativa similar à de outras mulheres negras, como Antonieta de Barros e Ruth Telles de Menezes. 

Outra faceta de sua trajetória profissional, foi sua atuação no Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), programa governamental com duração de 1967-1985. O projeto envolvia a alfabetização de adultos em prol do desenvolvimento da nação. 

Dona Goia desenvolveu as atividades do MOBRAL na Igreja São Sebastião, no período noturno, até 1979, quando optou em permanecer apenas na rede municipal de ensino.

Alelis, uma das supervisoras do programa e participante desta pesquisa, acrescenta: “Gonçalina tinha facilidade para alfabetizar, assim, era uma coisa que fluía! E ela alfabetizou muitos adultos”. 


Nesse meio tempo, também trabalhou na escola pública estadual Henrique Cirilo Correia, com as turmas de terceiro ano Anos Iniciais. Vale frisar que essa escola surgiu, primeiramente, para atender as demandas do orfanato Educandário Getúlio Vargas, depois foi aberta ao público. 
Como dona Goia morou na região e conhecia muita gente, foi chamada para assumir uma turma de alfabetização de crianças nessa escola.
Gonçalina iniciou a sua carreira na prefeitura o ano de 1976, trabalhando em uma escola rural com nome de um abolicionista, José do Patrocínio. Lecionou nessa escola durante anos em uma sala multisseriada, do 1° ao 5° ano. “Era só ela e a merendeira dentro da escola”, compartilhou Ângela, que nesse período também já era professora.
A partir do ano de 1979 dona Goia passou a atuar apenas na rede pública municipal de Campo Grande, especificamente na escola municipal Coronel Antonino, próximo a sua casa, com turmas do Ensino Fundamental I. 


O processo de sugerir o nome de Gonçalina para patrona de uma escola ocorreu pela indicação de mulheres que trabalharam com ela. As quais, no final do XX, estavam trabalhando na Secretaria de Municipal de Educação de Campo Grande/MS (SEMED).
Alelis, uma das responsáveis pela indicação, se autodenominou patrimônio da educação, pois a sua longa trajetória na área a colocou em contato com várias gerações de professores, e sempre que possível procura relembrá-los para nomear escolas e Emeis. 



Às vezes você homenageia uma pessoa que foi um político, inventa que ele foi professor para dar o nome. Mas a pessoa que realmente andou na chuva, secou a roupa no corpo, amassou barro, como a Gonçalina, o Zezão, Isauro Bento, Tomaz Ghirardelli e muitos outros são esquecidos. Então, eu acho muito importante resgatar esses nomes. Eu convivi com essas pessoas, elas precisam ser lembradas.


 A Escola Municipal Professora Gonçalina Faustina de Oliveira está em funcionamento desde fevereiro de 1992 com turmas do Ensino Fundamental. Seus filhos ficaram honrados e felizes com o reconhecimento do trabalho educacional desenvolvido pela mãe.

A inauguração oficial da escola ocorreu em 22 de setembro de 1999, no mandato do prefeito André Puccinelli, e contou com a participação da família da patrona. No interior do Brasil, na cidade de Campo Grande/MS, uma professora negra recebia a homenagem de nomear uma escola, uma grande vitória, uma mulher negra, no final do século XX, ocupando um espaço público. 


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