fevereiro 05, 2024

Apresentando Gonçalina Faustina de Oliveira

 


Gonçalina Faustina de Oliveira nasceu em Várzea Grande/MT em 19 de dezembro de 1936, a filha de Maria Clara do Nascimento conseguiu realizar o seu maior sonho: ser professora. 

Talvez, a dona Goia, como foi comumente chamada, ou mesmo tia Goia para os mais próximos, jamais imaginou que seu comprometimento com o ensino e sua solidariedade com os outros resultaria em reconhecimento e homenagem de ser patrona de uma escola municipal em Campo Grande, no bairro Jardim Tarumã.

Atuando em variadas frentes, mãe, esposa, lavadeira, diarista e professora, Gonçalina Faustina foi uma mulher da classe trabalhadora que vivenciou a sociedade campo-grandense na segunda metade do século XX. 

Amante de samba e apaixonada por Martinho da Vila, cantemos sua trajetória nesse trecho musical Canta Canta, minha Gente. Deixa a tristeza pra lá. Canta forte, canta alto. Que a vida vai melhorar! Que a vida vai melhorar. 

Casada desde os 20 anos de idade com o Benedito Pedro de Oliveira, o casal mudou-se de Várzea Grande/MT para Campo Grande/MS em 1958, devido as demandas do emprego de seu esposo. Seu Ditinho, como era chamado, foi carpinteiro do antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER), atual Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). 

Se instalaram no Bairro Cruzeiro e aqui terminaram de completar a família, com um total de sete filhos. O sentimento comunitário era muito forte entre as famílias da região, que criaram laços de solidariedade e formas de ajuda mútua. 

As relações foram muito próximas e os vizinhos considerados membros da família. Ângela relata que por conta da sua mãe, a dona Goia, ser muito receptiva, acolhedora e bem quista pela vizinhança, sua casa recebia muitas visitas. 

Gonçalina teve sete filhos e em vários momentos da entrevista, sua filha narra a valorização que atribuía aos estudos, repetindo suas palavras: “o que a gente deixa para os filhos é o estudo, ninguém tira educação e estudo. Tem que estudar, é o que vai fazer a diferença na vida de vocês”. E claro, como futura professora, exigia dedicação e comprometimento deles.

A preocupação em proporcionar instrução aos filhos e o acesso à educação formal, mesmo com as dificuldades, prevaleceu nos projetos de Gonçalina, que enxergou nesse caminho a chance de os filhos conquistarem lugares menos subalternizados na sociedade. Uma possibilidade de escapar do “lugar” socialmente destinado a população negra. 
Uma entrevistada, amiga de Gonçalina, reforçou que não foi fácil para Goia, mas obstinada em seu projeto profissional, venceu mesmo sendo mulher negra e mãe, já que “ser negro hoje é difícil, imagina lá atrás. A dificuldade, o olhar e o supor que você não dá conta, não é capaz. Como se a inteligência e capacidade estivesse na cor da pele. Ela foi uma inspiração, referência para mim”. 
Dona Goia, assim como a entrevistada, percebem a educação enquanto meio de transformação socioeconômica, isto é, uma valorização do estudo para as múltiplas demandas da vida, intelectual, profissional e de subsistência. Tal perspectiva concretizou-se nas existências dessas mulheres, como partilhou Alelis. 

Eu cheguei aonde quis chegar através da educação. Se não fosse a educação, eu não teria percorrido todos esses caminhos. Eu não teria saído da pobreza, eu não teria conseguido formar meus filhos, não é? Então, ela transforma as pessoas, a vida delas. Muitos saíram da marginalidade, da linha da pobreza pela educação.


 

Ângela comenta que a mãe fazia questão de reforçar com os sete filhos esse pensamento por meio da seguinte fala: “vocês precisavam estudar muito, já que são pretos e pobres. Então vocês precisam estudar para que vocês aprendam a se defender porque a defesa não é na força física. A defesa é na força intelectual, é nas palavras. É assim que vocês precisam ser”.

Gonçalina faleceu em 26 de abril de 1989, vítima de parada cardíaca em decorrência de um derrame que teve no anterior, o qual a deixou 24 dias internada. 

O protagonismo dessa mulher, negra e professora jamais será esquecido pela sua família, pelos colegas de trabalho, pelos seus alunos e amigos.

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