janeiro 30, 2024

A benção, tia Eva

 


Eva alcançou certo prestígio social pelos saberes acerca das ervas/raízes medicinais na prática da benzeção. Era tão boa no que fazia que diziam tratar-se de um dom. O poder da famosa benzedeira tia Eva, futura liderança quilombola em outras terras.
Benzedeira desde o tempo da escravidão, teve seu nome associado ao termo “tia”, uma denominação honrosa que possibilitou à tia Eva certo espaço social na fazenda e imediações (Plínio dos Santos, 2010).
Eva Maria de Jesus passou a ser conhecida na cidade pelas diferentes funções que desempenhou, como pontuou a tataraneta Neuza, “uma pessoa que acabava sendo várias”. Desenvolveu diferentes ofícios, foi benzedeira, parteira, curandeira, vendedora de doce/hortifruti e até “padre, para dar a extrema unção” e ministro da Igreja”.

Aqui em Campo Grande não foi diferente, agraciada com o dom de benzer e conhecedora das ervas, raízes e seus efeitos curadores, era solicitada para o tratamento de diversas moléstias e procurada pelos diferentes públicos. E de acordo com seu Michel, o dom de benzer de tia Eva ocorria com as graças de Deus e de São Benedito.
O reconhecimento dos saberes mobilizados por tia Eva em suas benzeções, o poder das palavras ou o domínio da linguagem nas rezas, o segredo das plantas e dos elementos da natureza para os mais diversos tipos de problemas e suas respectivas curas, possibilitou conquistar a confiança e certa “fama” na cidade. 

Foi uma benzedeira respeitada por pessoas das diferentes classes, até mesmo grandes fazendeiros e indivíduos influentes na época, vale lembrar a escassez de médicos nesse período. 
O conhecimento das plantas/ervas e suas propriedades terapêuticas e medicinais são saberes tradicionais e de medicina popular, transmitidos pela oralidade e praticado por mulheres, em sua maioria pobres, negras e indígenas, as quais podem ser denominadas de as primeiras médicas do povo. 
Constata-se o papel de relevância que essas mulheres exerciam em suas comunidades, cidades sustentando a ideia e o poder de cura através da fé, das rezas, das ervas, dos gestos e dos banhos. 


Com o passar dos anos, tia Eva começou a ser referência para várias pessoas da região de Campo Grande que tinham algum problema de saúde, pois a fama de tia Eva, como benzedeira, curandeira e parteira, já havia se espalhado. Nos momentos de dor ou de ameaça social, as pessoas a procuravam para ouvir conselhos, uma oração ou uma benção, pois reconheciam nela um saber religioso eficaz para essas conjunturas (Plínio dos Santos, 2013, p. 48).

Tia Eva também era muito chamada para partejar, segundo sua bisneta Adair, as pessoas vinham de carroça, carreta, de cavalo buscar ela. Acrescenta que se estivesse em um parto amarrado, usava das orações, do seu dom de benzer para acelerar o processo, assim “a criança nascia rápido, a mulher mal sofria”. 
De um modo geral, na sua imensa maioria, as parteiras estão ligadas a outras formas de cura, como por exemplo, a benzeção, assim como foi com tia Eva. 
Benedita Pinto (2012, p.212) defende que mulheres com os ofícios de parteiras, curandeiras e benzedeiras, mesmo com as benzeções, curas e partos, não se ausentam das atividades da casa, da roça e da chefia do lar. Tais funções não as isentam da labuta diária.
Geralmente, tomam a frente desses trabalhos e agenciam o desenrolar desses serviços. Os trabalhos da casa e da roça não são mundos separadas, apenas diferentes espaços os quais tais mulheres possuem pleno domínio. 
Praticante de medicina popular e de certo exercício religioso, temos tia Eva, uma figura feminina negra, ex-escravizada, que em sua vivência na sociedade campo-grandense da primeira metade do século XX foi respeitada e admirada, assumindo papéis de destaque e prestígio pelos seus conhecimentos e saberes.
Eva Maria de Jesus faleceu em 11 de novembro de 1926, aos 78 anos.  Segundo Seu Michel, “quando tia Eva morreu foi como se tivesse morrido um governador, uma grande pessoa. A cidade toda veio para cá”. 
No entanto, de acordo com Eliane Matos (2004) e suas pesquisas nos jornais da época do falecimento, não foi possível encontrar nenhuma notícia acerca da morte de tia Eva. 
A tataraneta Neuza ressaltou que não houve um esclarecimento sobre a causa da morte de Eva Maria de Jesus e até hoje não se sabe nada sobre. 
O busto de tia Eva, baseado em uma bisneta muito parecida, já que não existe retrato ou fotografia de seu rosto, e a Igreja de São Benedito são os pontos de referência da comunidade e consolidam na história presente da comunidade a ancestralidade e a memória de Eva Maria de Jesus, a matriarca e líder quilombola.  



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